sábado, 11 de junho de 2011

Pilotagem, mas do meu jeito

Foto roubada em amika.com.br. Click do Stênio Campos. Entre o banco e o volante, eu.



Faz tempo que quero falar sobre pilotagem de competição. Do meu jeito, claro. E competição de kart, que é acessível pra quase qualquer pessoa.

Já me perguntaram diversas vezes por que é que a gente (eu e "os cara") anda tão mais rápido na mesma pista, na mesma hora e com o mesmo kart.

Hora de tentar começar a responder.

Primeiro tem a técnica. Mas isso pra gente (poucos, na verdade) é coisa que não tem mais tanta importância. Mas deve ser dito.

Sem entrar em maiores detalhes, quanto maior for o raio da trajetória curva que a gente estiver descrevendo, mais rápido estaremos andando antes que o kart comece a escorregar.

Na verdade a gente tá escorregando o tempo todo enquanto percorre uma curva. Mas é uma escorregadinha discreta e que não reduz a velocidade de forma que a gente comece a perder tempo.

Tempo é importante. Quanto menos a gente perder, melhor. Depois volto a falar disso.

Então, basicamente é isso. Em trajetória não curva a gente afunda o pé no acelerador. Quando tá chegando perto da trajetória curva a gente breca até que a velocidade seja compatível com o arco a ser percorrido (descrito, em linguagem de geometria). Como a gente quer andar rápido, essa freada tem que ser feita no menor espaço possível.

Depois eu falo sobre como a massa, ou, o peso do conjunto (kart + a gente) se comporta em transição de movimento.

Antes eu quero falar de coisa mais importante, que é o que deveria estar na mente de quem tá pilotando.

Nada. Isso mesmo: nada.

Quem manda na pilotagem são os reflexos. A gente treina os reflexos pra pilotar e se preocupa com outras coisas relacionadas mas não diretamente ao ato de fazer o kart andar rápido. A gente já sabe que tem que frear e como frear. A gente já sabe que tem que virar o volante pra fazer uma curva e quanto virar. A gente tem gravado na mente o que tem que fazer quando o kart escorrega mais de traseira ou mais de frente. Isso tem que ser feito sem pensar. Tem que ser automático. Como piscar os olhos. A gente não comanda isso racionalmente. Apenas faz.

Nisso a gente não pensa. Daí eu ter falado que a gente não pensa em nada quando tá pilotando.

Sobra então grande capacidade de processamento pra "ler" a corrida, ou, avaliar nosso desempenho e o dos caras (e minas - elas aceleram um monte) e pensar no que tem que ser feito com o que a gente já tem, que é o que eu disse há dois parágrafos.

Sabendo e tendo gravado na mente o "como pilotar rápido", a gente dosa a velocidade em função dos outros que estão na pista na mesma hora.

Até agora não disse nada que ajude muito, né? Daqui em diante piora.

Fiz yoga. Não porque quis, mas porque era a atividade menos brutal que obrigatoriamente tive que fazer pra cumprir meus créditos e acabar a faculdade. Ou era isso ou iam me esfolar em quadras de basquete, futebol de salão e outros esportes violentos.

Ninguém acredita (sendo eu quem sou) que uso yoga até hoje, mais de 25 anos depois de ter aprendido algumas técnicas. Mais do que técnicas, minha  instrutora me deu uma outra visão de como usar meu corpo e minha mente. Me deu a chave pro domínio deles, de certo modo. Respiração, por exemplo, é comigo mesmo. Eu sei respirar. Mesmo fumando, não tenho problemas respiratórios. Isso ajuda muito enquanto a gente tá pilotando.

Pilotar é um exercício físico isométrico. A gente faz força sem se mover. Isso consome tanto o físico quanto a mente. Ambos precisam de oxigênio pra funcionar direito e a respiração treinada mantém o fluxo necessário. Só isso já justifica a prática da yoga.

Quem fica ofegante durante a pilotagem ou quem respira pela boca se ferra em pouquíssimo tempo. Falta ar e isso se torna uma preocupação. Essa preocupação tira o foco principal, que é "ler" a corrida. Tem quem fique nervoso também, logo antes de ir pra pista. Eu fico, às vezes. Mas é só respirar prestando atenção nos tempos de inspiração e expiração por alguns instantes que tudo fica em paz. Oito tempos inspirando, oito segurando o ar inspirado e dezesseis soltado-o. Essa é a proporção.

Já disse lá em cima que "nada" deve ocupar a mente da gente durante a pilotagem. Tem treino pra isso na yoga. Pra encher a mente de nada. E enche-se a mente de nada enquanto músculos e articulações fazem posições impensáveis pra quem fica apenas em pé, sentado ou deitado. Pra uma pessoa não iniciada é ótimo treino pra desprender a mente do corpo. Exatamente o que é necessário pra pilotar. Karts não são confortáveis. A posição do banco favorece mais a distribuição do peso no micro monoposto do que o conforto propriamente dito. A aceleração lateral (a força que tenta tirar a gente do banco quando em trajetória curva) é grande e é necessário algum esforço físico pra se manter sentado e na posição certa. Bem parecido com os ássanas da raja yoga, que era a modalidade que eu praticava.

Corrida ou treino é um filme. É um filme que a gente pilota. O kart é uma extensão do corpo da gente. Só que a gente não tá lá, no kart. Pode parecer esquisito mas é isso mesmo. Apesar da puta interação entre mente, corpo, chassis, motor, rodas e pneus, a gente tá mesmo é olhando adiante e se preparando pro próximo trecho da pista. A gente tem que preparar mentalmente as próximas curvas enquanto faz as do momento imediato. Aí que entra o Chi. (Explicando rapidamente, me envolví com isso porque me envolví com gente iteressada nisso que me interessava, se é que me entendem). Para orientais, o Chi é a energia vital. Mas não deve ser entendido como energia da forma que a gente conhece por não ser mensurável. E Chi a gente projeta pra fora da gente. Quando eu piloto e tô realmente empenhado em andar direito, projeto o Chi adiante, pra onde eu quero que o kart passe e do jeito que eu quero que se comporte.

Por enquanto tá bom, só isso. Mas esse texto é mutante e será modificado ao longo do tempo. Nos seus lugares, botava nos favoritos e voltava de vez em quando pra ver se tem alguma atualização.

Como eu disse, esse texto é mutante. Alá um texto do Bob Sharp sobre pilotagem em modo automático e modo manual, absolutamente pertinente e oportuno. Serve muito bem como apoio a esse aí de cima, que monta tosca e impressionisticamente o cenário de pilotagem de kart em competição:



Como eu disse, esse texto é mutante. Alá um texto do Bob Sharp sobre pilotagem em modo automático e modo manual, absolutamente pertinente e oportuno. Serve muito bem como apoio a esse aí de cima, que monta tosca e impressionisticamente o cenário de pilotagem de kart em competição neste link aqui.